7 June 2023

Preocupação

E de tão preocupado 
Em defender sua liberdade
Acabou preso nela.
Na poesia converso
Comigo própria
E com o mundo todo
Processo emoções e expressões
Desfio novelos de palavras
Que se cruzam e embrulham e misturam
Como amantes apaixonados
Ou rivais engalfinhados.
Na poesia encontro
A paz das coisas selvagens
A natureza do espírito
Que se quer humano
Feminino, compassivo
Generoso, grato.
Na poesia celebro
Os amores vividos
E os perdidos
As amizades, as mortes,
As boas e as más sortes.
Com a poesia me deito
E me dispo de preconceitos, vícios,
Medos, crendices e artifícios.
Com a poesia me salvo
E me devolvo o amor que mereço
No rescaldo de um qualquer desencontro
Na esperança de salvar o mundo
Sem me quebrar por dentro.

O caminho do bem

Era só uma passagem bonita,
Um acto de rendição e humildade.
Era só o coração a abrir uma fresta
Para sentir o calor da luz 
Que se anunciava lá fora, convidativa.
Em vez disso, uma rabanada de vento gelado e seco,
Corrente de ar pandémica, sufocante, masculina,
Quase infectando o espírito.
Fecha-se a porta de novo.
Depressa, não.
Devagarinho.
Porque no amor
As mulheres não tem que ser 
Sempre as derrotadas
E nem sempre é preciso chorar.
Antes erguer a cabeça e abrir o peito
A quem venha por bem e sem medo.
É que a liberdade não se serve arrogante ou altiva.
Bem-aventurada é a temperança das sábias feiticeiras
Que, no caminho do bem,
Chegam como partem,
Tomando o tempo que é seu,
Apenas passando em paz,
Ensurdecedoramente silenciosas.


4 June 2023

Sem limites

Fora com os formatos
Os conceitos os costumes
Os géneros as categorias
Definições classificações
E demais arrumações e ficções
Abaixo as tabelas os índices
As prioridades as normas
Modelos abstrações
Enumerações inventários e catalogações
Abaixo as vírgulas os pontos as ordenações
E até as palavras
- essas castradoras
E viva viva o amor
Infinita expressão
Improvisada
Da liberdade
Sem limites

27 May 2023

Tao

A tua cabeça aos meus pés.
A minha cabeça aos teus.
O avesso do avesso do avesso do avesso
Misturado sem sentido como deve ser.
O descanso do guerreiro
Yang no regaço de Yin.
Acolhedora. Disponível. Maternal.
Os ziguezagues do amor desatento.
Perdidos na cama 
Como na vida.
Lânguidos. Aos Sss. Divinos.
Benção maior do universo em paz.
Amen. 


11 April 2023

Haiku à moda do Porto

O sol queima
O vento ri gelado
Caralho.

4 January 2023

Luzinhas azuis deslizando
Suavemente em sinuosos
Diagramas de cores
Que se repetem e multiplicam

Enquanto corpos se arrastam

Em câmara lenta

Desdobrando-se e dilatando-se

Gigantes que ainda agora eram do meu tamanho

Passeiam pela sala ondulante, oscilante

Alice do outro lado do gato diletante

Frio abrasador ou calor cortante

As pontas dos dedos dormentes, persistentes 

E o estendido repicar dos sinos

Ecoando pelas montanhas e pela pele

Flocos de algodão cercando a língua

Até deslizarem garganta abaixo

Em cascata espiral infinita

Lá fora, paredes de árvores e folhas 

Fundem-se e desdobram-se 

Em casulos de míticas figuras

Ora diabólicas, sinistras, daninhas

Ora pueris, divertidas, tolinhas

Demónios, girafas, rainhas

Dançam e riem por dentro e por fora

É a vida seguindo novo ritmo

Que afinal é o mesmo de sempre

Enquanto respiro pintas de leopardo

E, pela primeira vez, conheço de novo o meu braço.