Ontem, vi-te.
Não serve para nada
Ver-te.
E, no entanto,
Activa-me o sistema nervoso
Mais do que um café da manhã.
Mas até eu devia era deixar
De tomar café...
Porque realmente aquilo
Não serve para nada.
Só nos deixa nervosos
E dá-nos cabo das entranhas.
É assim como ver-te.
Por falar nisso,
Ontem, vi-te.
26 January 2020
2 December 2019
Fica-te bem o pôr-do-sol
Com aquela luz alaranjada
Na tua cara mergulhada
Ofuscando até desaparecer.
Fica-te bem o pôr-do-sol
Os teus olhos cor de amêndoa
Cerrados como uma fenda
Rasgada no peito de quem os quer.
Fica-te bem o pôr-do-sol
Naquele fim de tarde lento e mole
Qual deslizar paciente de caracol
Breve eternidade que se deixa reter.
Fica-te bem o pôr-do-sol
Biópsia do céu guardada em formol
Que nos vem lembrar
Que até os idiotas
Se devem amar
Sobretudo quando ficam assim tão bem ao por-do-sol.
Com aquela luz alaranjada
Na tua cara mergulhada
Ofuscando até desaparecer.
Fica-te bem o pôr-do-sol
Os teus olhos cor de amêndoa
Cerrados como uma fenda
Rasgada no peito de quem os quer.
Fica-te bem o pôr-do-sol
Naquele fim de tarde lento e mole
Qual deslizar paciente de caracol
Breve eternidade que se deixa reter.
Fica-te bem o pôr-do-sol
Biópsia do céu guardada em formol
Que nos vem lembrar
Que até os idiotas
Se devem amar
Sobretudo quando ficam assim tão bem ao por-do-sol.
3 November 2019
O amor é sempre bom
O amor é sempre bom
Mesmo quando é indiferente
Mesmo quando não é suficiente
Mesmo quando é demasiado exigente
O amor é sempre bom
Mesmo quando causa sofrimento
Mesmo quando não passa de tormento
Mesmo quando tolda o pensamento
O amor é sempre bom
Mesmo quando não é contínuo
Mesmo quando vagueia sem destino
Mesmo quando perde o desígnio
O amor é sempre bom
Mesmo quando nos faz sentir sós
Mesmo quando desejamos não ser nós
Mesmo quando a humilhação é atroz
O amor é sempre bom
Por isso, mil vezes viver entupida de amor
Encurralada entre o êxtase e a dor
Do que acabar afogada num deserto sem cor.
Mesmo quando é indiferente
Mesmo quando não é suficiente
Mesmo quando é demasiado exigente
O amor é sempre bom
Mesmo quando causa sofrimento
Mesmo quando não passa de tormento
Mesmo quando tolda o pensamento
O amor é sempre bom
Mesmo quando não é contínuo
Mesmo quando vagueia sem destino
Mesmo quando perde o desígnio
O amor é sempre bom
Mesmo quando nos faz sentir sós
Mesmo quando desejamos não ser nós
Mesmo quando a humilhação é atroz
O amor é sempre bom
Por isso, mil vezes viver entupida de amor
Encurralada entre o êxtase e a dor
Do que acabar afogada num deserto sem cor.
21 September 2019
A Poesia Só Me Fode
A poesia só me fode.
Não fora ver tudo
Com esta luz inebriante
E talvez a vida fosse mais constante
Menos emocionante...
Não fora afogar-me no vinho
Que atiça o corpo
E adormece a razão
E já dançava menos
Evitava outro trambolhão
Ou caía menos desamparada
Porque talvez alguém
Me estendesse sua mão
- Provavelmente não.
Mas é que a poesia só me fode!
Não fora o outono da idade
Chover nos meus olhos
E talvez visse menos desfocado
Haveria mais claridade
Não tropeçava com tanta frequência
Refastelada no meu encosto
Para a saúde e para a doença
Não sofreria nenhum desgosto
Tamanha a crença na indiferença.
Mas não, havia de nascer poeta
Daqueles que cospem as entranhas
Pela boca e pelos olhos e pela mão
Qual vulcão em erupção
Chuva de estrelas incandescentes
A cair iradas, aceleradas
Para logo depois se apagar
Adormecer, arrefecer, dissipar
E sofrer baixinho para regar
A vida que cresce sobre si
Até voltar essa vontade de sacudir
E de tudo em torno destruir.
Cabum! Pum! Pow!
Eu vou é mas é dormir!
Que a poesia só me fode...
Não fora ver tudo
Com esta luz inebriante
E talvez a vida fosse mais constante
Menos emocionante...
Não fora afogar-me no vinho
Que atiça o corpo
E adormece a razão
E já dançava menos
Evitava outro trambolhão
Ou caía menos desamparada
Porque talvez alguém
Me estendesse sua mão
- Provavelmente não.
Mas é que a poesia só me fode!
Não fora o outono da idade
Chover nos meus olhos
E talvez visse menos desfocado
Haveria mais claridade
Não tropeçava com tanta frequência
Refastelada no meu encosto
Para a saúde e para a doença
Não sofreria nenhum desgosto
Tamanha a crença na indiferença.
Mas não, havia de nascer poeta
Daqueles que cospem as entranhas
Pela boca e pelos olhos e pela mão
Qual vulcão em erupção
Chuva de estrelas incandescentes
A cair iradas, aceleradas
Para logo depois se apagar
Adormecer, arrefecer, dissipar
E sofrer baixinho para regar
A vida que cresce sobre si
Até voltar essa vontade de sacudir
E de tudo em torno destruir.
Cabum! Pum! Pow!
Eu vou é mas é dormir!
Que a poesia só me fode...
6 September 2019
Montanha
Castelo no meio do mar
Senhora gigante
Guardiã atlântica
Esmagas com a tua
Majestade
Quem ousa
Olhar-te de frente.
Ah! Pudesse eu domar-te
Tomar-te em meus braços
E desvendar os teus mistérios!
Fechava-te no meu coração
E oferecia-te ao meu amor.
- Não posso. E ainda bem.
Senhora gigante
Guardiã atlântica
Esmagas com a tua
Majestade
Quem ousa
Olhar-te de frente.
Ah! Pudesse eu domar-te
Tomar-te em meus braços
E desvendar os teus mistérios!
Fechava-te no meu coração
E oferecia-te ao meu amor.
- Não posso. E ainda bem.
O Paraíso
Lá, onde a terra
Nem chega a começar
E o céu nunca acaba,
Mergulho num manto de azul infinito
E afogo-me
Entre oceanos de verde vigoroso
E terras de lava magnânimas.
Lá, onde não há norte nem sul,
Presa pela liberdade
E enterrada em vertigem
Rendo-me à minha insignificância
E sou enorme ao descobrir
Que o mistério da vida é nenhum
E o paraíso sou eu.
Nem chega a começar
E o céu nunca acaba,
Mergulho num manto de azul infinito
E afogo-me
Entre oceanos de verde vigoroso
E terras de lava magnânimas.
Lá, onde não há norte nem sul,
Presa pela liberdade
E enterrada em vertigem
Rendo-me à minha insignificância
E sou enorme ao descobrir
Que o mistério da vida é nenhum
E o paraíso sou eu.
26 August 2019
Esfinge
Eu sou aquela
Que ninguém decifra,
Ninguém desvenda
Nem antecipa.
Eu sou aquela
Que é má e boa,
Metade mulher
Metade leoa.
Eu sou aquela
Que é feita de pedra
Mas cuida sempre
De quem a observa.
Eu sou aquela
Enterrada na areia
- Se chegas muito perto
Cais na minha teia.
Eu sou aquela
Que é nova ansiã,
Austera e invicta
Dos corações guardiã.
Eu sou aquela
Que espera sozinha
E, mesmo parada,
Segue a sua trilha..
Eu sou aquela
Que o tempo corrói sem dó.
Um dia minha pedra
Voltará a ser pó
E todos vão perceber
Porque nunca me senti só.
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