1 June 2021

Penso

Sou um fluxo de poesia.
Ai de quem ouse estancar o meu verso.

30 May 2021

Gostava

Gostava de ter escrito este poema.
Um dia, hei-de escrevê-lo.

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THE PEACE OF WILD THINGS
by Wendell Berry

When despair for the world grows in me
and I wake in the night at the least sound
in fear of what my life and my children’s lives may be,
I go and lie down where the wood drake
rests in his beauty on the water, and the great heron feeds.
I come into the peace of wild things
who do not tax their lives with forethought
of grief. I come into the presence of still water.
And I feel above me the day-blind stars
waiting with their light. For a time
I rest in the grace of the world, and am free.




13 May 2021

O meu pai

O meu pai é uma criança
Com quem brinco 
Desde o momento em que nasci
E por isso nunca mais cresci
É um contador de disparates
Um inventor de coisas raras
Um despertador de curiosidades
Um poço de conhecimento
Mesmo quando a memória lhe falha
O meu pai é um chato
Que me arrelia
Desde que sou gente
E me persegue com lições
Preconceitos, doutrinas
Convicções bacocas 
Ou idealismos indigestos
O meu pai é um sonhador
Que me chapinha nas poças da chuva
Debaixo de um impermeável
Todo molhado e cheio de cor
Ou me encharca de lama
E minhocas e bichas-cadela
Para me devolver à terra
Ou me empurra ao mar
Até chegar bem lá no fundo
Até quase me afogar
Para me ensinar a lutar
O meu pai acha que substitui
A companhia do amor
Por um televisor...
Ou as crises de meia-idade
Com projectos a multiplicar
O meu pai não é nenhum herói
Ilustríssima vedeta 
Ou prémio Nobel da física
Da literatura ou da aritmética
E também não é nenhum monstro
Nem selvagem nem ditador
O meu pai é um homem normal
É uma pessoa do seu tempo
Para o bem e para o mal
Cheio de defeitos e virtudes
Com as suas angústias, anseios
E frustrações e muito amor
Como todos nós, no fundo
É o melhor pai do mundo.

9 May 2021

A poesia que passa

A poesia é como o vento
Quando menos se espera
Levanta-se no ar
E faz a cabeça rodopiar
Entrelaça-se no coração
E desperta sorrisos
Ou põe-nos a chorar
É que a poesia 
Não conhece o tempo
Mas abraça o momento
Que inspira e desaparece
Enquanto se acorda
Se caminha
Ou se adormece
Enterrada na rede
Sentada à secretária
Entre amigos na praia
Ou às voltas no fogão
Ou entre as folhas
Das árvores e das plantas
Que se agitam na floresta 
Cheia de mistérios
Ora suave dança ondulante
Ora presença inquietante
E lá está a poesia
Entre sombras e reflexos
Em noites luminosas
Ou no fundo oceânico
Alguns poemas são apanhados
Pobres coitados
E acabam aqui sozinhos
Ou aos punhados
Uns bem bonitos, animados
Outros melhor fora
Estivessem calados
Mas há ainda aqueles,
Os outros
- Oh tantos!
Que são levados 
Pela correria da vida
Pela distracção involuntária 
Pelo acidente inesperado
Pelo sono implacável
Pelo sol radioso da manhã
Pelos salpicos das ondas
Pela chuvinha pardacenta
Ah, o cheiro a esteva, 
A terra que acorda molhada, 
A urze no monte, o suor, a maresia
E lá vem ela de novo 
A poesia...

A hora das sombras

Àquela hora
As sombras levantam-se
E começam a dançar
Oscilantes
Impõem-se
Deambulando no ar
Desenhando rastos
Desalinhando formas
É que àquela hora
As sombras acordam
Espreguiçam-se
Esticam-se 
Revelam-se
E escondem-se
Vagueando 
Entre raios e coisas
Tremendo sem saber
O que é frio ou temer
Que aquela hora passe
Porque àquela hora
As sombras são
--
Vestígios da luz 
Que ilumina
O seu reflexo
Ao contrário

30 April 2021

Ai poeta,
Dás-me saudades do amor
Da vertigem da vida
Do vendaval de cor!
Saudades dos pássaros
A voar
E da melodia de seu bico
A assobiar.
Ai poeta,
Lembras-me o romance
Que nunca aconteceu
E o amante
Que nunca foi meu.
E dás-me vontade
De chegar aonde sonhei
Lá bem longe
Perto do horizonte
Onde fica eu não sei.
Ai poeta,
Devolves-me a paz
Ao entoares as rimas e os acordes
Que me lembram capaz
De amar quem nunca conheci
Fazer o que nunca fiz
E que jamais esquecerei
Ou tãopouco recordarei
Porque também eu sou rainha
Nesse magnífico reino
Sem egos, formas ou leis 
Onde todos andamos nús
Sorrindo
Porque não somos ninguém.

10 April 2021

Urso vazio

Certo dia, visitei
O lugar do urso
Que me atacou
Corri florestas
Galguei trilhos
Saltei ribeiros
Segui regatos
Perdi-me nas silvas
Recuperei caminhos
Procurei recordações
Esvaziei os bolsos
Que estavam cheios
De tesouros
Pesados 
Como remorsos
Suei muito
Rasguei vestes
E músculos
Até que uma brisa
Ao passar
Me distraiu
Com chilreios
E cores doces
Água fresca 
Cheirinho a esteva
E minhas pernas 
Fizeram-se asas
Abertas
Qual cegonha longa
A planar
Sobre líquenes
Sinuosos
Sobre ramos
Torcidos 
Dos carvalhos
E cabelos
Soltos
Dos choupos
Sobre curvas
Imprevisíveis
Dos riachos
Lá de cima
A pairar
Não via ursos
Nem lobos
Nem javalis
Só as veias 
Da vida a pulsar
- E as cascas
Daquele enorme
Animal vazio
Que afinal
Nem existe.