2 December 2020

Poemas (Quase) Esquecidos ao Sol

Pelas frestas das pestanas
Espreita o azul celeste
De mansinho
Entre as finas cortinas negras
Humedecidas 
Por cristais de sal cintilantes
Que reflectem os raios quentes.
Pálpebras ruborescidas
Por finos regatos de sangue
Que desenham sinuosos 
Mapas coloridos num céu só meu
E eis que os salpicos refrescantes das ondas
Vêm re(a)cordar a vida que palpita
Neste casulo aconchegante
Onde habita esta alma curiosa
Impaciente por eclodir
E de novo se fundir 
No azul profundo do mar.

--

Bóia 
Cheia de sentidos
Metade quente, metade fria
Navega ao sabor da corrente
Flutuando empurrada
Pelo vento lento
Pequeno corpo oscilante
Ondulando para trás
E para diante
Saboreando cada instante
Em que tudo se mistura
Num longo beijo 
Que perdura.


14 November 2020

O amor cansa

O amor cansa
Pelo tempo que demora
A encontrar
A reconhecer
A entender
Toda aquela espera
Aquele deserto
Tão vazio quanto frio
Da solidão
Que nos envelhece
E endurece
Ai mas como cansa o amor
Pela tamanha energia 
Que consome
Quando finalmente
Aparece aquele homem
Que faz de novo tudo brilhar
E a pobre da alma 
Volta a acreditar
E lá segue cega 
Toda enamorada
Entusiasmada
Acelerada
Direitinha que nem um fuso
Para de novo se espetar
E é por isso que o amor cansa
De ligação em ligação
Lá vai andando
Feito criança
Passando dos braços de um
Para os olhos do outro 
E mais outro e outro e outro e outro e outro e outro e outro e outro e outro e...
Qual beija-flor colorido
Se lambuzando no arbusto florido
Inebriado pelo perfume e pela cor
Qual barquinho flutuando sem sentido
À deriva no mar das emoções
Quebrando as ondas 
Como quem quebra corações
Apenas para terminar afundado
Inundado de ilusões 
Rodopiando até ao fundo
Como quem dança
Uma dança infinita
- Oh dança maldita!
Com o mundo todo a girar
Sem nunca parar
Até acabar tonto  
Virado de pernas para o ar
E é vêr aquelas almas errantes
Esgotadas, baralhadas
Ainda assim, entusiasmadas
- Quais lobos das estepes
Transformados em carneirinhos 
De espuma e salpicos salgados
Lá vão em debandada
Rumo a essas paragens celestiais
Tão longínquas quanto belas
Onde tudo é paz e temperança
E o amor é ainda uma dança
Mas já não cansa.
 
 
 

9 November 2020

As Coxas Doridas

As coxas doridas
Coloridas
Pelos tons de quem passou
Como vento quente de Verão
Levantando a areia da praia
Num turbilhão.
As coxas doridas
Exauridas
Pelas noites mal dormidas 
Bem acordadas
Do tempo distraídas
As coxas doridas
Pelos músculos 
Que não são seus
Nem teus
Mas do mundo todo
A girar
As coxas doridas
Desprotegidas
Sem medo 
Sem mistério
Sem pena
Sem foco
As coxas doridas
Pela tecnologia
Tão simples
Dos corpos
A amar.

18 October 2020

O Riso dos Outros

No escurinho do cinema,
Soltou-se aquela gargalhada
Tão sentida, tão plena!
E, de repente, parecia
Que tudo estava igual,
Que o mundo não mudara.
Estar ali afinal
Ainda era normal.
Naquele breve instante, 
A máscara do tempo caiu
E todos podíamos ver 
Aquela cara enrugada, 
Contorcida, iluminada 
Pela grande tela brilhante
E por aquele riso contagiante
Que inundava a sala
E nos devolvia
Uns aos outros.
 


27 September 2020

O Que Arde Cura

Cara Maria Adelaide,
O que arde cura e tu sabias.
Não foi preciso que to dissessem.
Estava no fundo do teu coração,
Enterrado debaixo de festas e ostentação.
Uma vida tão perfeita,
Tão bem arrumada, embrulhada,
Tão direita,
Era afinal a tua prisão,
Cheia de um grande vazio,
Entre paredes frias de aflição.
Qual corpo acorrentado
Afundavas-te, afogavas-te
No negrume sufocante sem fim
De ti própria.
Mas eis que te soltaste enfim,
Animada pelo calor de uma paixão.
E nadaste como quem voa
E abandonaste a tua feia escuridão.
Passaste de invejada a doente,
De madame a puta,
De intelectual a louca,
De rica senhora a pobre coitada...
Porque é isso que acontece
Às que encontram a sua cura
E descobrem  que o mistério de todas as coisas
É apenas um clarão.
Tu viste essa luz que se chama vida,
Escolheste arder na tua própria decisão
- Porque antes queimar pelo fogo
Do que pelo gelo da solidão.
E qual sol incandescente,
Inexorável, indomável, resplandecente
Queimaste, derreteste e abafaste,
Todos os que te queriam controlar.
É que o que arde cura.
Tu entraste em combustão
E deixaste uma bela lição. 


11 June 2020

As galinhas

As galinhas chegaram
Em dia de manifestação.
Vieram num caixote,
À hora da reunião.
Conheceram a capoeira nova,
Ainda não terminara o relatório.
Bateram as asas no quintal
Em pleno prime time noticiário.
E bicaram minhocas e bichos
Durante um registo no notário
E mais um conto do vigário.
Mal se pôs o sol, recolheram
- Era hora de fazer o jantar.
De madrugada, puseram um ovo,
Que às redes sociais foi parar.
E exploraram o seu novo ambiente
Sem pensar ou questionar
Como haviam ido ali parar
Ou como a terra continuava a rodar.
- A quê?! A rodar?!
Eram galinhas felizes
- Assim preferimos acreditar,
Cujo futuro era incerto
E ninguém podia adivinhar.
E, entre couves bicadas, cacarejos,
Gatos à espreita, ovos chocados,
Banhos de terra, plumas sacudidas,
Mal sabiam que ensinavam
Mais do que qualquer deus, mestre ou cientista,
Livro, site, jornal ou revista,
Apenas por existirem
Em todo seu esplendor,
Saboreando o momento
Sem qualquer pudor,
Disfrutando a vida,
Sem nenhuma dor.

26 April 2020

VOCÊ É Que Não Entende Nada + Quotidiana

VOCÊ É Que Não Entende Nada

Quando eu chego em casa nada me consola
Você está sempre frito
Lágrimas nos olhos, de tanta maconha
Você é tão bonito
Você manda vir a pizza, eu como
Me bota sobre a mesa, eu tomo, eu tomo
Eu tomo, eu tomo, eu tomo
Você não está entendendo
Quase nada do que eu digo
Eu quero ir-me embora
Eu quero é dar o fora
E quero que você venha comigo
E quero que você venha comigo
Eu me arrumo, eu limpo, engomo, eu não aguento
Você está tão curtido
Eu quero tocar fogo neste apartamento
Você não acredita
Traz sua roupa imunda, eu lavo
Me deixa toda acesa, eu tomo, eu tomo
Eu tomo, eu tomo, eu tomo
Você tem que saber que eu quero correr mundo
Correr perigo
Eu quero é ir-me embora
Eu quero dar o fora
E quero que você venha comigo
E quero que você venha comigo
E quero que você venha comigo
E quero que você venha comigo
E quero que você venha comigo

+

Quotidiana

Todo dia ele faz tudo sempre igual
Me acorda às seis horas da manhã
Me sorri um sorriso pontual
E me beija com a boca de hortelã

Todo dia ele diz que é pra eu me cuidar
E que eu sou sua única mulher
Diz que volta na hora do jantar
E me beija com a boca de café

Todo dia eu só penso em poder parar
Meio-dia eu só penso em dizer não
Depois penso na vida pra levar
E acendo outra boca do fogão.

Seis da tarde, como era de se esperar
Ele chega e me acena do portão
Diz que está muito louco pra deitar
E me beija com a boca de machão

Toda noite ele diz pra eu não me afastar
Meia-noite ele jura eterno amor
E me aperta pra eu quase sufocar
E despeja em meu corpo sua dor

Todo dia ele faz tudo sempre igual
Me incomoda às seis horas da manhã
Me sorri um sorriso pontual
E me beija com a boca de hortelã

Todo dia ele diz que é pra eu me cuidar
E que eu sou sua única mulher
Diz que volta na hora do jantar
E me beija com a boca de café

Todo dia eu só penso em poder parar
Meio-dia eu só penso em dizer não
Depois penso na vida pra levar
E me calo com a boca de feijão

Seis da tarde, como era de se esperar
Ele chega e me espreita do portão
Diz que está muito louco pra deitar
E me beija com a boca de machão

Toda noite ele diz pra eu não me afastar
Meia-noite ele jura eterno amor
E me aperta pra eu quase sufocar
E despeja em meu corpo sua dor

Todo dia ele faz tudo sempre igual
Me sacode às seis horas da manhã
Me sorri um sorriso pontual
E me beija com a boca de hortelã