Trabalhar no campo é difícil
Mesmo que não seja pesado
Ou não faça calos nas mãos
Nem bolhas nos pés
Mesmo que não doa nas costas
Ou provoque tendinites
Amigdalites ou outros xiliques
Mesmo que não faça calor abrasador
Ou frio de arrepio
Mesmo que não chova
Nem faça sol
Ou nevoeiro ou trovoada
Como se vê lá fora
Pela janela escancarada
Por onde entram melodias e besouros
Brisas gentis e rosas perfumadas
Abelhas atarefadas
E outros tesouros
Ao fundo o rumor prateado do mar
Ou será a folhagem das árvores a vibrar?
A coruja que pia, o gato que mia
O chilrear dos pintassilgos
Os corvos a corvejar
As galinhas a tagarelar
E o urro do burro
- Já deve ser hora de jantar...
Ah como trabalhar no campo é difícil!
Vou mas é desligar
Resistir à doce tentação desse lúcifer
Que me atravessa os sentidos
E inebria o siso
Malvada tentação
Que só atrapalha o mister
Sempre a seduzir
E a causar prejuízo
Com promessas de paraíso.
