27 September 2020

O Que Arde Cura

Cara Maria Adelaide,
O que arde cura e tu sabias.
Não foi preciso que to dissessem.
Estava no fundo do teu coração,
Enterrado debaixo de festas e ostentação.
Uma vida tão perfeita,
Tão bem arrumada, embrulhada,
Tão direita,
Era afinal a tua prisão,
Cheia de um grande vazio,
Entre paredes frias de aflição.
Qual corpo acorrentado
Afundavas-te, afogavas-te
No negrume sufocante sem fim
De ti própria.
Mas eis que te soltaste enfim,
Animada pelo calor de uma paixão.
E nadaste como quem voa
E abandonaste a tua feia escuridão.
Passaste de invejada a doente,
De madame a puta,
De intelectual a louca,
De rica senhora a pobre coitada...
Porque é isso que acontece
Às que encontram a sua cura
E descobrem  que o mistério de todas as coisas
É apenas um clarão.
Tu viste essa luz que se chama vida,
Escolheste arder na tua própria decisão
- Porque antes queimar pelo fogo
Do que pelo gelo da solidão.
E qual sol incandescente,
Inexorável, indomável, resplandecente
Queimaste, derreteste e abafaste,
Todos os que te queriam controlar.
É que o que arde cura.
Tu entraste em combustão
E deixaste uma bela lição. 


11 June 2020

As galinhas

As galinhas chegaram
Em dia de manifestação.
Vieram num caixote,
À hora da reunião.
Conheceram a capoeira nova,
Ainda não terminara o relatório.
Bateram as asas no quintal
Em pleno prime time noticiário.
E bicaram minhocas e bichos
Durante um registo no notário
E mais um conto do vigário.
Mal se pôs o sol, recolheram
- Era hora de fazer o jantar.
De madrugada, puseram um ovo,
Que às redes sociais foi parar.
E exploraram o seu novo ambiente
Sem pensar ou questionar
Como haviam ido ali parar
Ou como a terra continuava a rodar.
- A quê?! A rodar?!
Eram galinhas felizes
- Assim preferimos acreditar,
Cujo futuro era incerto
E ninguém podia adivinhar.
E, entre couves bicadas, cacarejos,
Gatos à espreita, ovos chocados,
Banhos de terra, plumas sacudidas,
Mal sabiam que ensinavam
Mais do que qualquer deus, mestre ou cientista,
Livro, site, jornal ou revista,
Apenas por existirem
Em todo seu esplendor,
Saboreando o momento
Sem qualquer pudor,
Disfrutando a vida,
Sem nenhuma dor.

26 April 2020

VOCÊ É Que Não Entende Nada + Quotidiana

VOCÊ É Que Não Entende Nada

Quando eu chego em casa nada me consola
Você está sempre frito
Lágrimas nos olhos, de tanta maconha
Você é tão bonito
Você manda vir a pizza, eu como
Me bota sobre a mesa, eu tomo, eu tomo
Eu tomo, eu tomo, eu tomo
Você não está entendendo
Quase nada do que eu digo
Eu quero ir-me embora
Eu quero é dar o fora
E quero que você venha comigo
E quero que você venha comigo
Eu me arrumo, eu limpo, engomo, eu não aguento
Você está tão curtido
Eu quero tocar fogo neste apartamento
Você não acredita
Traz sua roupa imunda, eu lavo
Me deixa toda acesa, eu tomo, eu tomo
Eu tomo, eu tomo, eu tomo
Você tem que saber que eu quero correr mundo
Correr perigo
Eu quero é ir-me embora
Eu quero dar o fora
E quero que você venha comigo
E quero que você venha comigo
E quero que você venha comigo
E quero que você venha comigo
E quero que você venha comigo

+

Quotidiana

Todo dia ele faz tudo sempre igual
Me acorda às seis horas da manhã
Me sorri um sorriso pontual
E me beija com a boca de hortelã

Todo dia ele diz que é pra eu me cuidar
E que eu sou sua única mulher
Diz que volta na hora do jantar
E me beija com a boca de café

Todo dia eu só penso em poder parar
Meio-dia eu só penso em dizer não
Depois penso na vida pra levar
E acendo outra boca do fogão.

Seis da tarde, como era de se esperar
Ele chega e me acena do portão
Diz que está muito louco pra deitar
E me beija com a boca de machão

Toda noite ele diz pra eu não me afastar
Meia-noite ele jura eterno amor
E me aperta pra eu quase sufocar
E despeja em meu corpo sua dor

Todo dia ele faz tudo sempre igual
Me incomoda às seis horas da manhã
Me sorri um sorriso pontual
E me beija com a boca de hortelã

Todo dia ele diz que é pra eu me cuidar
E que eu sou sua única mulher
Diz que volta na hora do jantar
E me beija com a boca de café

Todo dia eu só penso em poder parar
Meio-dia eu só penso em dizer não
Depois penso na vida pra levar
E me calo com a boca de feijão

Seis da tarde, como era de se esperar
Ele chega e me espreita do portão
Diz que está muito louco pra deitar
E me beija com a boca de machão

Toda noite ele diz pra eu não me afastar
Meia-noite ele jura eterno amor
E me aperta pra eu quase sufocar
E despeja em meu corpo sua dor

Todo dia ele faz tudo sempre igual
Me sacode às seis horas da manhã
Me sorri um sorriso pontual
E me beija com a boca de hortelã

19 March 2020

Contagion

The virus came with the wind
Sweeping streets and lives
Panic shut behind doors
Hope built behind screens
People deprived from touch
Touch touch touch
We touch everything
Every time, everyone
From our face
To our hearts
To touch is to be alive
Yet, isolation cures
Yet, isolation kills
We are not our bodies
Wash your soul
As you wash your hands
Wash all viruses away
To infect only love
And stay in touch
To stay alive.

9 March 2020

A Sorte do Artista

23/ 08/ 2011

Ser artista é ser abençoado. É ter uma doença tão grave que é a própria cura. É ser mais alto, dizia a outra. Tão alto que não se chega e nem cabe em lado nenhum. Tão alto que se desequilibra e tropeça e cai. É ser desequilibrado. É sentir tanto que nem sente mais nada. É hummmmmmmmmmmm... Do outro lado do aquário. Espelho do espelho. A gritar tanto que se acaba surdo, fechado no próprio mundo. Autista. Auto-ista. Ego. Isto. Ou aquilo. Eu sei lá o quê! Ser artista é sei lá o quê que não se entende nada do que anda para ali a fazer. É ter uma sorte. Sem saber a sorte que tem. Que sorte... Morte... Que morte? O artista não morre. O artista está morto antes de morrer. Porque vive tanto que não vive nada. Muito para além da vida. Sem medo, lá vai ele. Que sorte a do artista!

26 January 2020

Universal calling

Today you called.
Everything stopped.
And suddenly the world
Was at peace again.
My breathing calmed,
Time passed slower
And that enormous distance
That keeps us apart
Was not ever there.
Today you called
And I realised I am
On the right way,
A way of love
A way from me
A way for you
To me.

Ontem, vi-te.
Não serve para nada
Ver-te.
E, no entanto,
Activa-me o sistema nervoso
Mais do que um café da manhã.
Mas até eu devia era deixar
De tomar café...
Porque realmente aquilo
Não serve para nada.
Só nos deixa nervosos
E dá-nos cabo das entranhas.
É assim como ver-te.
Por falar nisso,
Ontem, vi-te.